
Em dezembro de 2024, a Pantone anunciou a cor do ano de 2025: Mocha Mousse, um marrom quente com notas de café e chocolate. À primeira vista, parecia uma escolha de decoração e moda, mais associada a paredes e roupas do que a telas. Mas o tom logo apareceu em sites, aplicativos e peças de conteúdo, puxando junto uma paleta inteira de cores terrosas que vem mudando a cara do design digital.
A Pantone descreveu a Mocha Mousse como um convite ao conforto e à indulgência, um tom que remete a sensações táteis e quentes em um momento de excesso de estímulos digitais. Não é a primeira vez que a instituição usa a cor do ano como termômetro cultural: escolhas anteriores já sinalizaram desde otimismo pós-crise até urgência climática. Desta vez, o recado parece ser o desejo por algo mais humano e menos artificial.
Historicamente, paletas terrosas eram território da arquitetura, da moda e do design de interiores. No digital, prevaleciam azuis corporativos, roxos de startup e neons associados à tecnologia. Essa fronteira começou a se dissolver: marrons, terracotas, verdes-musgo e bejes passaram a aparecer em identidades visuais, interfaces e fotografia publicitária, criando um contraste deliberado com o visual frio que dominou a estética “tech” da última década.
Boa parte da explicação está na saturação visual causada pela produção massiva de conteúdo sintético e por interfaces cada vez mais parecidas entre si. Diante de tanta imagem gerada em série, texturas orgânicas, madeira, solo e luz natural funcionam como um contraponto: sinalizam autenticidade e cuidado artesanal, mesmo quando aplicadas em um ambiente totalmente digital. É a mesma lógica que explica o sucesso de fotos com grão, tipografia serifada e ilustrações desenhadas à mão em meio a um feed dominado por gradientes perfeitos.
Na prática, a estética se traduz em algumas escolhas recorrentes: fundos em tons de argila e areia no lugar de branco puro, fotografia de still life com luz quente e sombras marcadas, texturas de papel e tecido em vez de superfícies lisas, e uma tipografia menos geométrica, com traços que lembram escrita à mão ou serifas clássicas. O efeito buscado é sempre o mesmo: fazer a tela parecer menos tela e mais objeto físico, algo que se possa quase tocar.
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