
Em abril de 2025, o Mandarin Oriental colocou no ar um novo programa de reconhecimento de hóspedes e um aplicativo que entrega à equipe, em tempo real, o perfil completo de quem está chegando: a temperatura preferida do quarto, a restrição alimentar, o vinho pedido na última estadia. O sistema, construído com a empresa de dados Ireckonu, não fica esperando o hóspede pedir. Ele antecipa. Essa palavra, antecipar, resume a virada mais comentada no marketing de luxo hoje, e ela tem menos a ver com hotelaria do que parece.
O termo técnico é hiperpersonalização preditiva: em vez de reagir ao que a pessoa já disse, o sistema cruza comportamento em tempo real, histórico e até o tom de comentários para prever o próximo desejo. No painel Destination AI, realizado em dezembro de 2025, Carolyn Corda, diretora-geral da consultoria Deloitte, resumiu o que está em jogo. Para ela, o cliente de luxo não quer mais só ser chamado pelo nome, quer sentir que a marca entendeu suas intenções e seus valores. Corda chama isso de nível “get me”, algo como “me sacou”. A tecnologia é o que torna essa leitura possível em escala.
A parte menos glamourosa é onde mora a diferença. Frank Pitsikalis, vice-presidente de estratégia de produto da Agilysys, fez a observação mais prática do painel: o valor não está no dado parado dentro de um CRM (o sistema que guarda o cadastro do cliente), e sim no dado disponível, de forma útil, na ponta dos dedos de quem atende. Reconhecer preferências de iluminação, vinho e bem-estar antes da chegada só funciona quando essa informação vira gesto humano na hora certa. Um perfil riquíssimo que ninguém consegue acessar no momento do atendimento não personaliza nada.
Aqui o caso da hotelaria de luxo diz respeito a qualquer negócio que se comunica online. A hiperpersonalização depende de dois ativos que a marca precisa controlar: os dados que ela mesma coleta e o canal onde a experiência se desenrola. O Mandarin não terceirizou esse encontro para uma vitrine alugada, construiu um aplicativo e uma base de perfis sob seu próprio domínio. Para marcas menores, o equivalente é o site e os conteúdos próprios: o lugar onde dá para registrar quem retorna, adaptar a mensagem e conduzir a conversa sem depender do algoritmo de uma plataforma que muda as regras sem avisar.
Existe um risco embutido nessa corrida. Precisão demais, sem sensibilidade, soa invasiva. Piers Schmidt, cofundador da consultoria Luxury Partners, colocou a régua no lugar: a tecnologia é um facilitador que libera a equipe das tarefas repetitivas para ficar mais tempo diante do cliente, e o pulo do gato é transformar o dado em interação humana. Will Gilbert, da Bodhi, descreve ambientes que ajustam luz e temperatura ao ritmo de cada pessoa, discretos a ponto de quase não serem notados. A melhor personalização é a que se sente como cuidado, não como vigilância. É essa fronteira, e não a potência do sistema, que separa uma marca que encanta de uma que assusta.
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Resposta direta com o Fabiano. Sem formulário, sem rodeio.