Branding · 13 jul 2026 · 4 min de leitura

Como uma caixa de batata frita virou o Grand Prix de Cannes 2026

Como uma caixa de batata frita virou o Grand Prix de Cannes 2026

Existe uma coincidência visual que a Heinz decidiu não deixar passar despercebida: o formato da caixinha de batata frita – aquele trapézio que aparece em praticamente todo fast food do planeta – é quase idêntico ao logo em forma de brasão da marca, criado há mais de 150 anos. A campanha que transformou essa observação em ativo de mídia global levou o Grand Prix de Print & Publishing no Cannes Lions 2026, com 1,6 bilhão de impressões em 33 países.

A ideia por trás do Grand Prix

Batizada de “Look Familiar?”, a campanha foi criada pela Rethink, de Toronto, num momento em que o preço da batata frita – e do próprio ketchup – vinha subindo, empurrando consumidores para marcas mais baratas. Em vez de competir por preço, a Heinz foi atrás de uma verdade que já existia no mundo real: a silhueta da caixa de fritas. A peça central da campanha era só isso – uma imagem simples, sem edição, sem manipulação, colocando lado a lado embalagens de fast food do mundo inteiro ao lado do logo Heinz. A presidente do júri, Jessica Apellaniz, resumiu o motivo do prêmio: “o que premiamos não foi a ausência do produto. Foi a presença da marca.”

Da ideia ao resultado

A campanha foi ao ar em pontos estratégicos de sete países – China, Canadá, Brasil, México, Emirados Árabes, Estados Unidos e Reino Unido – priorizando centros urbanos e estações de trânsito, onde o consumo de batata frita por impulso é mais alto (numa escolha de localização com uma dose de humor, um dos pôsteres foi parar bem ao lado da estação de metrô mais próxima do escritório do McDonald’s na China). Pra fechar o ciclo entre ver e comprar, a marca fez uma parceria inédita com o Uber Eats, adicionando Heinz Ketchup automaticamente aos pedidos de batata frita – mesmo em restaurantes que não tinham o produto no cardápio.

Ilustração comparando a silhueta da caixa de batata frita com o formato de brasão do logo da Heinz
A mesma silhueta, dois contextos: a caixa de fritas e o brasão que a Heinz usa há mais de 150 anos.

Os números por trás do “It Has to Be Heinz”

O alcance da campanha chegou a 42% da população nos Emirados Árabes e 33% em Toronto. A integração com o Uber Eats gerou alta de 222% nas vendas pelo aplicativo nos Estados Unidos, onde os pontos de distribuição da marca cresceram 9,78%. No Canadá, a penetração nos lares subiu 3,38 pontos percentuais, chegando a 10,31%, com vendas de US$ 18,5 milhões em 2025. No Reino Unido, o market share em volume cresceu 4,37%; no México, 3,58%. A campanha também rendeu mais de 150 menções na imprensa especializada, com a Heinz aparecendo em 86% das manchetes.

O que fica desse case

O júri de Cannes chamou essa abordagem de “creative observation” – a ideia de que, às vezes, a campanha mais forte não precisa ser inventada, só encontrada. Num momento em que boa parte da comunicação disputa atenção com produções cada vez mais elaboradas, a Heinz mostrou que um insight simples, bem observado e bem contado, ainda rende mais do que orçamento de produção. É um lembrete de que identidade visual forte – um logo, uma cor, uma forma – vale mais quando ela já mora, sem que ninguém precise forçar, no dia a dia de quem consome.

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