
Em abril de 2025, a AXA France acrescentou três palavras a uma cláusula do seguro residencial: “e violência doméstica”. A frase entrou no trecho que trata de realocação de emergência, o mesmo que cobre a saída às pressas de casa depois de um incêndio ou de um alagamento. A partir dali, deixar a própria casa fugindo de um agressor passou a ser uma situação prevista em contrato. Em 25 de junho de 2026, essa alteração de apólice levou o Grand Prix de Creative Effectiveness no Cannes Lions, a categoria que só entrega prêmio a quem consegue provar impacto real no negócio.
A nova redação permite que vítimas de violência doméstica rompam o contrato de moradia sem multa e acionem apoio para realocação emergencial. A cobertura valeu tanto para apólices novas quanto para as que já estavam ativas, sem renegociação individual. Junto do contrato veio uma linha de atendimento dedicada, com orientação jurídica para registro de ocorrência e pedido de medida protetiva, além de acompanhamento psicológico com profissionais treinados para esse tipo de caso. A estrutura toda foi desenhada a partir de uma parceria com 80 ONGs espalhadas pela França. A criação é da Publicis Conseil, de Paris.
Creative Effectiveness não julga a beleza da peça. O júri pede evidência de que a campanha moveu o ponteiro do negócio, com dados auditáveis de vendas, participação de mercado ou percepção de marca. Os números apresentados pela AXA foram bem concretos: 121 pessoas atendidas no primeiro mês e 1.292 ao longo dos dez primeiros meses, alta de 321% no tráfego do site logo na largada, aumento de 9% em novos contratos que se manteve em 9,1% ao longo de seis meses, e índice de consideração de marca em 67% contra uma média de mercado de 43%.
O detalhe interessante é a origem desses resultados. Nenhum deles veio de uma promoção, de uma redução de preço ou de uma promessa institucional. Vieram de um ajuste no documento que o cliente assina.
Em 2025, a mesma campanha já havia levado o Grand Prix de Titanium, o de Creative Business Transformation e o de Direct, e colocou a AXA como marca mais criativa do ano em Cannes. Nunca antes um vencedor de Titanium tinha voltado no ano seguinte para faturar o Grand Prix de Creative Effectiveness. Somando os festivais internacionais, incluindo Clio, Eurobest, LIA e D&AD, o trabalho passou de cem prêmios e liderou o ranking WARC Creative 100, feito inédito para uma marca de serviços financeiros.
Vale assistir ao case study oficial, que mostra como a mudança de cláusula foi comunicada.
O que dá credibilidade a um posicionamento de causa costuma ser o custo que ele impõe a quem o assume. Ampliar a cobertura de uma apólice significa assumir risco financeiro, revisar processos de sinistro e treinar equipe de atendimento para conversas delicadas. É um movimento que aparece no balanço, não apenas no calendário de campanhas. A mesma lógica aparece em referências antigas do repertório: a Patagonia transferindo o controle da empresa para uma estrutura ambiental, a CVS Health tirando cigarros das prateleiras das próprias farmácias.
Para negócios de porte menor, o equivalente não precisa ser uma decisão bilionária. Uma política de transparência de preço, um prazo garantido em contrato ou um serviço gratuito para um público específico funcionam pela mesma mecânica, porque custam algo real e podem ser verificados por quem compra. A parte que vira comunicação é consequência da decisão, e raramente o contrário.
Existe alguma promessa da sua comunicação que ainda não está escrita no contrato? Fala com a Moreau →
Resposta direta com o Fabiano. Sem formulário, sem rodeio.