
Em junho de 2026, os números apresentados no Retail Media FC Summit trouxeram duas informações que, lado a lado, formam um retrato curioso do mercado brasileiro. A primeira é de crescimento: segundo a eMarketer, os investimentos em retail media no Brasil devem avançar 38,4% neste ano e chegar a US$ 1,67 bilhão, cerca de R$ 8,4 bilhões, colocando o país na liderança global pelo terceiro ano consecutivo. A segunda vem do mesmo levantamento e aponta na direção oposta: a parcela de anunciantes brasileiros muito satisfeitos com suas estratégias de retail media caiu de 77,8% em 2023 para 54,7% em 2025. O canal que mais cresce no país é também um dos que mais geram queixa de quem investe nele.
Retail media é a publicidade que acontece dentro do ambiente onde a compra é feita: os resultados de busca de um marketplace, os banners de um site de varejo, os aplicativos das redes e, cada vez mais, as telas dentro da loja física. A diferença em relação à mídia tradicional está na origem dos dados. Enquanto uma campanha em rede social segmenta por interesse declarado ou comportamento inferido, o varejista sabe o que aquela pessoa comprou, com que frequência e a que preço. É informação de intenção real, coletada em primeira mão.
Esse é também o motivo pelo qual o formato virou peça central do jogo. O levantamento da eMarketer mostra que 53,8% dos compradores digitais da América Latina preferem pesquisar produtos direto em sites e aplicativos de varejistas. Os mecanismos de busca aparecem depois, com 37,7%, e as redes sociais com 33,4%. A descoberta de produto migrou para dentro do próprio comércio, e a mídia acompanhou o caminho.
Boa parte do avanço brasileiro passa pelo Mercado Ads, braço de publicidade do Mercado Livre. No terceiro trimestre de 2025, a operação de anúncios da empresa cresceu 56% em dólar, com os formatos de display e vídeo quase dobrando na comparação anual. A cobertura do Upfront de 2025 citou 131 mil anunciantes ativos na plataforma no Brasil, e análises de mercado atribuídas ao Goldman Sachs chegaram a projetar potencial de multiplicar a receita de anúncios por quatro até 2028, uma tese de longo prazo e não uma projeção oficial da companhia.
O movimento mais visível para 2026 é a saída do fundo do funil. A plataforma anunciou parcerias de TV conectada com HBO Max e Roku, somando-se a integrações com Disney+ e Mercado Play, e expandiu o inventário para fora do próprio site, alcançando dezenas de milhares de propriedades na internet aberta. Na prática, uma operação que nasceu vendendo posição em busca de marketplace passou a disputar verba de topo de funil com as grandes plataformas globais.
Os motivos apontados pelos anunciantes na pesquisa são bastante concretos: dificuldade de medição e atribuição, falta de padronização da indústria, relatórios limitados sobre os dados próprios dos varejistas, o esforço de gerenciar muitas redes diferentes ao mesmo tempo e preços altos. Nenhum desses pontos questiona o potencial do canal. Todos falam da operação do dia a dia.
A raiz do problema é estrutural. Cada varejista opera sua própria rede, com painel próprio, janela de atribuição própria e critério próprio para contabilizar uma venda. Quem anuncia em cinco redes lida com cinco réguas diferentes, e nenhuma delas conversa com as outras nem com o restante do plano de mídia. O resultado é um canal que entrega venda, mas dificulta a comparação com qualquer outro investimento saído da mesma verba.
Os anúncios de busca continuam liderando a preferência, com 71,4% de intenção de compra nos próximos doze meses, embora o percentual tenha recuado em relação ao ano anterior. O mesmo aconteceu com display e banners tradicionais. Na direção contrária, os formatos programáticos operados via DSP, as plataformas que compram mídia de forma automatizada, cresceram 8,3 pontos percentuais na comparação com 2024. A demanda caminha para TV conectada, ativações em loja física e compra automatizada.
O pano de fundo regional ajuda a dimensionar o movimento. A publicidade digital latino-americana deve crescer 16,4% em 2026, o segundo ritmo mais acelerado do mundo, e os aportes na região devem saltar de US$ 22,9 bilhões em 2025 para US$ 41,9 bilhões em 2030. Retail media é a fatia que puxa essa curva. A fase seguinte do canal provavelmente será decidida menos pelo tamanho do crescimento e mais pela qualidade da mensuração que ele conseguir entregar.
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