
Numa pesquisa da ABRAINC em parceria com a Brain Inteligência Estratégica, 66% dos entrevistados afirmaram que pagariam mais por um imóvel equipado com energia solar, e 56% topariam o mesmo por um sistema de reúso de água da chuva. O dado raramente aparece nos anúncios, mas descreve bem uma virada silenciosa: a etiqueta ambiental de um empreendimento saiu da lista de amenidades e passou a influenciar o quanto o comprador aceita desembolsar. No alto padrão, onde cada detalhe é investigado antes da assinatura, esse deslocamento já redesenha o que conta como sofisticação.
Boa parte do setor usa “sustentável” como adjetivo decorativo, então vale separar o que tem lastro técnico. Dois sistemas concentram a credibilidade global. O LEED, criado pelo US Green Building Council, é o programa de construção sustentável mais usado no mundo e avalia desde eficiência energética até qualidade do ar interno. O EDGE, lançado em 2015 pela International Finance Corporation, braço do Banco Mundial, trabalha com um piso objetivo: para receber o selo, o projeto precisa comprovar pelo menos 20% de redução no consumo de energia, no de água e na energia embutida nos materiais. A faixa avançada, chamada EDGE Advanced, exige 40% ou mais de economia de energia e reconhece a edificação como Zero Carbon Ready.
A pergunta natural é se essa reputação vira dinheiro, e a evidência mais firme vem do segmento comercial. Um estudo dos pesquisadores Odilon Costa e Wesley Silva, da FGV, mediu o efeito em São Paulo e encontrou uma valorização de 4% a 8% por metro quadrado no valor do aluguel quando o edifício é reconhecido como sustentável. Do lado residencial, a disposição a pagar mais registrada pela ABRAINC funciona como o outro lado da mesma conta: quem compra enxerga na certificação a promessa de contas menores e de um ativo que envelhece melhor. Em imóveis de alto padrão, onde a velocidade de comercialização costuma ser tão observada quanto o preço, esse prêmio tende a se somar aos atributos já esperados pelo comprador.
O receio de que sustentabilidade signifique estouro de orçamento não se sustenta nos números. Dados da própria IFC indicam que o custo incremental para atingir o EDGE costuma ficar entre 0,5% e 3% do projeto, sobretudo quando as decisões certas são tomadas ainda na prancheta. Esse acréscimo tende a voltar por três caminhos: a economia operacional de água e energia ao longo da vida útil, a rapidez maior na venda e o prêmio de valor percebido. Deixar a eficiência para o retrofit, depois da obra pronta, costuma sair bem mais caro do que desenhá-la desde a primeira linha do projeto.
No topo do mercado, a certificação deixou de ser argumento técnico e passou a fazer parte da história que o empreendimento conta sobre si. O comprador de luxo contemporâneo associa responsabilidade ambiental a cuidado, longevidade e bom gosto, e espera que isso já venha embutido no produto, não anunciado como concessão. A comunicação muda de eixo: em vez de listar o selo num checklist, os empreendimentos mais bem posicionados traduzem a eficiência em experiência palpável, o conforto térmico de uma casa bem orientada, a água que não falta, a conta de luz que surpreende pela baixa. Lida assim, a sustentabilidade se aproxima da mesma lógica de sofisticação discreta que orienta o consumo de luxo mais maduro.
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